Capítulo XXV

 

FÓRMULA DO TEMPO

 

“ O tempo não existe. É apenas uma convenção.”

- Jorge Luís Borges -

 

 

     O que é o tempo? O que é o espaço?

     Poderíamos começar por assumir ingenuamente que nós não sabemos o que é o Tempo, que nós não sabemos o que é o Espaço.

     Nós apenas sabemos o que é uma relação de espaço, que o espaço é uma distância entre dois pontos, mas não sabemos dizer o que é o espaço em concreto.

     Nós também não sabemos dizer o que é concretamente o tempo, sabemos apenas o que é uma relação de tempo, que o tempo define uma duração entre dois acontecimentos.

     Mas definir essas duas unidades objectivamente torna-se bastante difícil e o pensamento praticamente bloqueia-nos assim que tentamos definir uma origem do tempo e um limite para o espaço.

     Assim que invocamos a ideia de origem ou início, e portanto, de um princípio, esta imediatamente ultrapassa-nos.

     Admitamos que o Universo teve um começo. Mas como este começo é uma existência precedida de um tempo antes do começo, logo, deve ter havido um tempo em que o nosso Universo ainda não existia, digamos, um tempo vazio ou um pré-tempo.  Ora, falar no começo do tempo, ou antes, num tempo vazio, equivale sempre a situar o tempo … no tempo. Que ciclo vicioso!

     Ninguém percebe como é que se pode conceber uma criação de tempo fora de tempo. Eventualmente porque, não deve ser concebível!

     Não existe, por definição, um período anterior ao tempo, nem pode existir. De modo que, a questão de saber o que pôde existir nessa altura, antes do início do tempo, não tem qualquer sentido.

     É sempre perigoso perguntarmo-nos o que pôde ter existido antes do nascimento do Universo. Se consideramos que não havia tempo, aquilo que estamos a considerar é que existia um pré-tempo, diferente do tempo físico habitual e, na prática, estamos a atribuir um novo conceito que está muito longe de responder à questão colocada, apenas a desloca e transforma-a.

     Se assumirmos efectivamente que não havia tempo antes do tempo, então, não havia História para situá-la no tempo. Tal como não poderia haver nada que se pudesse situar no tempo, não havia portanto, nenhum tempo histórico … bem como não poderia existir um tempo histórico circundante, isto é, o tempo em que a nossa Historia está incluída. O que pretendo dizer é o seguinte: Admitir um tempo histórico circundante em torno de um tempo não existente, equivale a situar esse tempo que nunca existiu no tempo, no próprio tempo.

     A única demonstração possível é aquela em que o tempo é eterno, infinito e imortal!

     Passemos para uma questão ainda mais fundamental que é a seguinte:

     Se poderão existir vários tempos … ao mesmo tempo!? Ou mesmo, diferentes tipos de tempo! Será o tempo uma medida absoluta e efectiva, sempre igual e imutável na sua forma, constante em todos os campos do Universo e em todos os Universos, ou poderá o tempo ser algo mais variável e versátil?!

     Se virmos bem, esta Força do Tempo é a força dominante! Subtil mas sempre presente e actuante. Esta força reina desde o início do tempo e já estava presente mesmo muito antes de todas as outras forças terem surgido. Dir-se-ia que é uma espécie de Força Suprema. Mas nunca ninguém ouviu falar nesta Força do Tempo! Como é que uma coisa tão evidente consegue passar tão despercebida?!

     Compreendo que é muitas vezes quando as coisas se disfarçam sob o óbvio que não as conseguimos ver. Tentemos descrever quais serão as características do tempo. Não há nada na Física conhecida que estabeleça uma lei para a passagem do tempo! Será este assunto ainda demasiado abstracto?!

     Já vimos que não é possível conceber um início do Universo fora de tempo. E o mesmo argumento é válido se concebêssemos o fim do tempo do Universo.

    Mesmo nesse tempo onde tudo teria um fim, mesmo nesse mundo onde nada se passe, de gelo e de morte, estático e inerte, mesmo que nada mais se mova, o tempo, esse, continua activo e vivo para continuar a fazê-lo ser.

     O Tempo é o artesão da sua preservação, da renovação do Presente, da continuidade do tempo. A sua paragem verdadeira significaria, portanto, não apenas a imobilização e ausência de movimento de todas as coisas, mas também a interrupção imediata do presente, ou seja, o desaparecimento de tudo o que existe. Quando digo tudo, quero mesmo dizer tudo! O que e algo difícil de conceber no nosso intelecto. Tal aniquilação, instantânea e completa, resultaria num verdadeiro apocalipse. Neste apocalipse tudo teria um fim, o que implicaria o fim do próprio ‘fim’, como tal, nem sequer poderia ser o fim. Porque o fim também obedece ao princípio da causalidade, o que no nosso caso implicaria que não haveria causa que precedesse o fim. E se nada conduziria a um fim … então, não poderia existir um fim.         

     O que pretendo dizer mais claramente é que o fim do tempo também não é concebível. Entraríamos noutro paradoxo.

     Não pode haver mundo sem tempo, nem pode haver tempo fora do tempo. Portanto, o tempo é consubstancial ao mundo e ao próprio tempo.

     Sendo assim, o tempo não poderá ser finito em ambas as direcções, o tempo terá de ser infinito em todas as direcções. Não podemos confiar num modelo de tempo assimétrico para o nosso Universo, com um início do tempo mas com um tempo final infinito ou indefinido. O Tempo é simétrico, constante e infinito em todas as direcções e em todas as dimensões.

     Tentemos descodificar uma Fórmula para o Tempo.

     Se o tempo é tudo, está em todo o lugar, a absorver tudo o que acontece e o que não acontece … onde está a fórmula fundamental do tempo?!

     Como é que ambicionamos construir uma Teoria Unificada sem incluir a Força do Tempo?! O Tempo também é uma força, uma grande força, esta é também uma das sementes do nosso Universo. Como poderemos ambicionar construir um Universo sem Tempo?!

     Antes de mais, é possível demonstrar matematicamente que o tempo não existe. Que é um conceito puramente abstracto.

     Quando dizemos que o tempo não tem existência real, estamos a considerar o próprio tempo como uma grandeza física simultaneamente nula e infinita. Esta Força Fundamental do Tempo assume valores absolutamente abrangentes, desde o valor zero até ao valor infinito.

     De acordo com a dedução de António Saraiva, essa demonstração matemática é possível. Partindo da Hipótese de que zero é igual a infinito, deduz-se que:

     0 = ∞

     log 0 = log (+∞)

     -∞ = +∞

     log (-∞) = log (+∞)

     log (-1) + log (+∞) = +∞

     i.π + ∞ = ∞

     ∞ = ∞

     A conclusão é que o zero é igual a infinito e, vice-versa, que o infinito é igual a zero.

     Esta formulação teórica pode ser transportada para uma formulação prática, que é a seguinte: Por um lado, podemos considerar que o tempo não tem existência real concreta, neste caso, é-lhe atribuído um valor zero. Isto implica dizer que não existe nenhuma relação de duração temporal física e objectiva. Na prática significa que não podemos dizer vulgarmente ‘ali vai aquele bocado de tempo’, porque o tempo não existe como uma duração física e espacial, não podemos encontrá-lo com dimensões de um objecto em concreto, porque o tempo natural não dispõe de três dimensões físicas espaciais. O tempo como relação de duração entre dois acontecimentos passado-futuro tem existência física nula, é por isso que não podemos encontrá-lo fisicamente.

     Por outro lado, todos nós sentimos a passagem do tempo. Mas esse tempo que percepcionamos é o tempo presente, que é um instante, é um momento sem dimensões e sem durações, é uma singularidade, por isso, o momento presente é um momento infinito. É aqui que o tempo assume a sua outra faceta, o valor infinito.

     O tempo assume um carácter ambivalente e polivalente, simultaneamente nulo e infinito. De modo que, podemos dizer: no Tempo nada é eterno e nada é efémero! Se pretendermos compreender esta grandeza física pela percepção dos nossos sentidos, ficamos completamente limitados. Quer isso dizer que, se não podemos tratar o tempo fisicamente, somos obrigados a tratar o tempo matematicamente. Mas para procedermos a uma manipulação matemática do tempo, falta-nos uma fórmula fundamental do tempo.

    Qual é o mecanismo que codifica e descodifica esta constante relação temporal? Qual é a partícula mensageira do tempo?

     Então vejamos, será que o tempo afecta todos os organismos e todos os objectos simultaneamente e da mesma forma?!

     Uma bactéria está programada para se reproduzir a uma taxa muito precisa de tempo. O tempo de divisão celular de uma bactéria varia de espécie para espécie e é influenciada por muitos factores externos como, por exemplo, a temperatura. Mas em condições óptimas de crescimento estes organismos unicelulares dividem-se em cada vinte minutos. Isso significa que uma única bactéria pode produzir 280 biliões de descendentes num só dia!

     Um mineral radioactivo está programado para se desintegrar numa taxa específica de tempo., designado por período de meia-vida. Este decaimento corresponde ao tempo necessário para que metade do nuclídeo original se desintegre transformando-se num núcleo mais estável.

     As árvores Sequóias da família das Coníferas sabem que a sua esperança de vida está estimada numa média de 3500 anos de tempo. Na verdade, a árvore mais antiga do mundo tem 9500 anos, é um pinheiro comum na Noruega.

     Como é possível que tudo o que existe saiba quanto tempo está a passar?!

     Possivelmente porque todos os organismos possuem um relógio biológico próprio interno, que os mantém sintonizados com esta frequência do tempo. Só que ninguém sabe quais os meios exactos que ocultam esta enigmática força do tempo. Este imenso império continua a aguardar por um explorador astuto e corajoso que descubra o domínio e o absoluto conhecimento do fluxo temporal.

     Se conseguíssemos descobrir os mecanismos básicos do tempo, os seus segredos mais íntimos, teríamos em mãos a maior força que governa todo o Universo!    

     Se o tempo é o que faz com que tudo mude, a uma taxa constante, com a mesma velocidade para todos os seres e substâncias que disponham das mesmas propriedades, fazendo com que nada possa permanecer igual a si mesmo, podemos dizer que o tempo é uma Constante de Mudança.

     Mas se o tempo também é o que faz com que tudo continue, analogamente também poderíamos considerá-lo como uma Constante de Continuidade.

     A mudança e a impermanência exigem uma lei intemporal de eternidade e continuidade.

     Num sentido óbvio, podemos dizer que somos todos viajantes do tempo, pois mesmo que nada façamos, seremos arrastados inexoravelmente por esta força do tempo em direcção ao futuro. Desta forma podemos deduzir e garantir que o tempo mantém toda a matéria informada da passagem do tempo, sem excepções. Há sempre um padrão no tempo e uma sintonia que sensibiliza todas as substâncias moleculares e todos os elementos químicos para a passagem desta força.

      E qual é o elemento fundamental constituinte dos organismos biológicos e não biológicos? Qual é a constituição fundamental da matéria?

     Mais uma vez retornamos ao Campo e à Energia! De tal forma que podemos dizer que o tempo é uma forma de energia, como tantas outras. Passando a redundância, podemos dizer que o tempo é a energia que afecta a energia. O que significa, muito claramente, que o tempo também viaja pelo espaço de uma forma uniforme e contínua, acompanhando a velocidade da luz, pois este campo temporal também se distribui à velocidade aproximada de 300.000 Km/s.

     Porque o Tempo é um Campo associado ao espaço.

     O tempo é um campo, e o campo temporal é na sua essência uniforme. É claro que podem existir casos pontuais em que a própria estrutura do espaço é alterada e deturpada. Nesses casos, se o tempo se propaga pelo espaço, ou antes é prisioneiro do espaço, poderemos assistir a diferentes fluxos de tempo … Porque a expressão do tempo pode ser alterada.

     Se a energia do tempo é dominante, sempre presente mesmo na ausência de todas as outras forças, qual é a força de campo que o produz?

     Se a energia do tempo é constante, qual é o campo responsável para atribuir essa constância?

     Este nosso tempo é, antes de mais, um tempo particular e não corresponde ao Tempo Fundamental.

      Outra relação física interessante, estabelecida por António Saraiva, é a seguinte:

     Considerando um átomo de Hidrogénio, podemos constatar que um electrão percorre uma órbita fundamental segundo um padrão curioso.

     Neste movimento fundamental, a velocidade do electrão é mínima e a sua energia também é mínima. De modo que, este movimento obedece a um ciclo constante e a um período bem definido.

     Mais do aquilo que os números nos mostram, é a interpretação teórica que daí advém. E esta é a parte que devemos salientar, de que todos os átomos obedecem a um padrão constante. O deslocamento da carga do electrão obedece a um período bem definido. Este movimento repetitivo é igual para todos os átomos. E são esses os relógios biológicos da Natureza. Os próprios átomos são concebidos desde o início para responderem a um determinado fluxo de tempo e, consequentemente, toda a estrutura a partir deles produzida, desde as moléculas, às células, à própria vida, obedece a esse padrão de tempo. Desta forma é fácil concluir que é a velocidade dos electrões nos átomos que estabelece o curso do tempo, o tempo de vida de um átomo.

     Se eventualmente os físicos possuíssem um equipamento capaz de medir e registar o número de órbitas completadas por um electrão num átomo, iriam verificar que esse número é uma Constante. Excepto quando este átomo deixa de estar em repouso e passa a deslocar-se em velocidade e aí assistiríamos ao fenómeno da relatividade generalizada e concluiríamos que o número de órbitas realmente efectuadas seria manifestamente inferior. A tradução deste processo reflecte-se numa redução do fluxo do tempo.

 

     Para compreendermos a subtileza desta força temos de voltar a lembrarmo-

-nos daquela valiosa constante: A Constante de Estrutura Fina.

     Esta constante volta a entrar em palco em mais uma questão fundamental da Física, que é o Tempo.

     Numa das suas anotações podemos verificar que o perímetro P correspondente a uma orbital estável assume um valor exacto, de acordo com a seguinte equação:

 

P = 2πRb= 137λe

    

     Em que:

 

     Rb => Raio de Bohr = 5,292 x 10-11 m

     λe => Comprimento de onda de Compton = 2,426 x 10-12 m

 

     O raio de Bohr, ou raio médio de um átomo, e o comprimento de onda de Compton, ou comprimento de onda médio de um electrão, representam unidades de medida que nos permitem determinar o perímetro da trajectória efectuada pelo electrão. Esse perímetro, como podemos constatar, assume um valor muito preciso, exactamente 137λe.

     Do mesmo modo também podemos tentar prever a velocidade média do electrão enquanto permanece nesta órbita estável, que também obedece a uma relação interessante que é a seguinte:

    

ve = c / 137

 

     Mais uma vez, a Constante de Estrutura Fina α = 1 / 137, parece adquirir um papel principal na velocidade desta partícula ou, melhor dizendo, na velocidade com que decorre o próprio tempo … e, curiosamente, associada à velocidade com que se propaga o tempo, que é a velocidade da luz c.

     E podemos definir que a velocidade do tempo, ou a fórmula do tempo, é dada por:

 

FÓRMULA DO TEMPO

 

vt = c α